Lembro-me daquele tempo em que o medo de perder era maior que a dor de vencer. Lembro-me de sons figurados e dissimulados, mutuando qualquer lembrança cumulativa. Lembro-me do gótico, do gélido e da alegria que foi vencida pelo cansaço de só mais um dedo opositor, de só mais uma voz sedutora que indicava qualquer caminho inventivo.
Lembro-me de pontos e vírgulas postos numa graduação famigerada. Lembro-me de alguns corais (tanto dos corais marinhos quanto daqueles unidos em uníssono). Lembro-me até da aliteração de uma poesia solitária, pobre e pesada. Lembro-me de um apontar árduo de espécie simétrica, talvez dos acentos esquecidos e do sorriso apertado, forçado, suscitado de agonia. Lembro-me de tantas esquinas que esperaram só mais um conselho de Pitágoras. Lembrei apenas dos melhores, e entre eles estava Drummond, Clarice e Machado.
E assim, contrário e perdido, eu somente lembrei de ter vivido a sorte de uma língua sem dobras, de uma consciência sem limites, de um viver encharcado de chuva fraca e fina, que insiste em desaguar monossilabicamente nos olhos cansados que enxergam mais que o ontem possa alcançar e mais que o limite possa nascer.
sábado, 26 de setembro de 2009
sábado, 5 de setembro de 2009
A Porta Preta - Um pequeno conto
Parte II
Já não fosse feito de sensações traidoras, usurpadoras do coração de Pablo, acontecia também o impasse físico. Nunca entendi como aquele corpo, que um dia sustentou tanta força, pudesse estar impregnado de maldade e rarefazer o instinto benévolo. Talvez duas pessoas convivessem ali, mas este não é o foco da história.
Pablo e sua mãe atravessaram a rua despercebidamente, porém agora com expressões impassíveis, dignas de serenidades descomunais. O asfalto cheirava a chuva, as nuvens cheiravam a chuva e o céu, agora ainda mais coberto de 256 tons diferentes, implorava claridade.
Uma escada pequena e torta indicava o caminho ao hospital; a partir dali o escárnio da pureza fora iniciado. Um ar ora imperioso ora subjetivo, dominava cada gota de sangue que corria nas artérias daquele garoto. E ao chegar ao topo da escada, podia avistar completamente a rua lá embaixo: larga, pura e sólida. A construção estava a frente deles, com pedaçoes de gesso bem moldados, arredondados e pintados de um marrom avermelhado. Não se podia negar que o lugar era antigo, mas também possuía uma beleza minuciosamente detalhada. Entraram por uma porta de madeira talhada em quadrados semelhantes. A mão fria da mãe de Pablo tocou a maçaneta e empurrou a porta devagar, fazendo-a ranger um pouco.
Sim, era um hospital. Muitas pessoas já circulavam por ali, muitas vidas com fisionomias abatidas. Bonito por fora, pesado por dentro; por dentro de Pablo, por dentro do hospital, por dentro de almas quase eternamente ligadas às carnes.
- Acho que este não é o lugar adequado, não me sinto bem aqui. - Disse à mãe, tentando ser paciente.
- Não é este? - Questionou receosamente.
- Não.
- Você quer tentar outro? - O rosto dela queimava de desespero.
- Aham. - Respondeu num tom seco e sério.
A porta do hospital foi aberta mais uma vez e o ranger fora escutado pela última vez. Saíram juntos, de mãos dadas, desceram pela mesma escada e voltaram ao mesmo passeio. Carros velozes passavam e marcavam a pista, era impossível atravessá-la. Alguns ciclistas arriscavam o exercício pelo acostamento.
Um ônibus parou. Não me lembro bem aonde ia, mas notei que os dois entraram e sentaram. A mente desordenada de Pablo traduzia o pensamento de que não importava muito qual caminho estavam seguindo, o seguir por si só era o suficiente, o bastante. Chegaram ao lugar correto assim.
Já não fosse feito de sensações traidoras, usurpadoras do coração de Pablo, acontecia também o impasse físico. Nunca entendi como aquele corpo, que um dia sustentou tanta força, pudesse estar impregnado de maldade e rarefazer o instinto benévolo. Talvez duas pessoas convivessem ali, mas este não é o foco da história.
Pablo e sua mãe atravessaram a rua despercebidamente, porém agora com expressões impassíveis, dignas de serenidades descomunais. O asfalto cheirava a chuva, as nuvens cheiravam a chuva e o céu, agora ainda mais coberto de 256 tons diferentes, implorava claridade.
Uma escada pequena e torta indicava o caminho ao hospital; a partir dali o escárnio da pureza fora iniciado. Um ar ora imperioso ora subjetivo, dominava cada gota de sangue que corria nas artérias daquele garoto. E ao chegar ao topo da escada, podia avistar completamente a rua lá embaixo: larga, pura e sólida. A construção estava a frente deles, com pedaçoes de gesso bem moldados, arredondados e pintados de um marrom avermelhado. Não se podia negar que o lugar era antigo, mas também possuía uma beleza minuciosamente detalhada. Entraram por uma porta de madeira talhada em quadrados semelhantes. A mão fria da mãe de Pablo tocou a maçaneta e empurrou a porta devagar, fazendo-a ranger um pouco.
Sim, era um hospital. Muitas pessoas já circulavam por ali, muitas vidas com fisionomias abatidas. Bonito por fora, pesado por dentro; por dentro de Pablo, por dentro do hospital, por dentro de almas quase eternamente ligadas às carnes.
- Acho que este não é o lugar adequado, não me sinto bem aqui. - Disse à mãe, tentando ser paciente.
- Não é este? - Questionou receosamente.
- Não.
- Você quer tentar outro? - O rosto dela queimava de desespero.
- Aham. - Respondeu num tom seco e sério.
A porta do hospital foi aberta mais uma vez e o ranger fora escutado pela última vez. Saíram juntos, de mãos dadas, desceram pela mesma escada e voltaram ao mesmo passeio. Carros velozes passavam e marcavam a pista, era impossível atravessá-la. Alguns ciclistas arriscavam o exercício pelo acostamento.
Um ônibus parou. Não me lembro bem aonde ia, mas notei que os dois entraram e sentaram. A mente desordenada de Pablo traduzia o pensamento de que não importava muito qual caminho estavam seguindo, o seguir por si só era o suficiente, o bastante. Chegaram ao lugar correto assim.
domingo, 23 de agosto de 2009
Pontos
Sintomas simétricos situados no coração revelam toda a faculdade da razão; quase nula, até mais do que o engasgar doloroso. Talvez sufoques mais pessoas, talvez até se orgulhe disto, mas muito mais talvez se enforque no próprio peso de uma língua inconsciente.
Arranhados, acabados, destroçados, os símbolos incolores que te dei. Cheguei sim a indagar o invadeável, e com os pés molhados cerquei-me das gotinhas de calafrio. Um tanto seco, um tanto seguro, mas num canto enlacei a narração; sem sentido, sem caminho, com ou sem a rima de um poema claro, claríssimo.
Queria ter tanta inveja para interpretar metaforicamente como Carlos. Queria ter a honra de sentir um orgulho estilo espectro color; seria mudar para um momento perfeito, mesmo que por momento, mesmo que por segundo. Mesmo que por ferido, prefiro mesmo perder. E, se pensei por um instante em ganhar, jactancioso fui, jactancioso sou, jactancioso serei.
Arranhados, acabados, destroçados, os símbolos incolores que te dei. Cheguei sim a indagar o invadeável, e com os pés molhados cerquei-me das gotinhas de calafrio. Um tanto seco, um tanto seguro, mas num canto enlacei a narração; sem sentido, sem caminho, com ou sem a rima de um poema claro, claríssimo.
Queria ter tanta inveja para interpretar metaforicamente como Carlos. Queria ter a honra de sentir um orgulho estilo espectro color; seria mudar para um momento perfeito, mesmo que por momento, mesmo que por segundo. Mesmo que por ferido, prefiro mesmo perder. E, se pensei por um instante em ganhar, jactancioso fui, jactancioso sou, jactancioso serei.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
A Porta Preta - Um pequeno conto
Introdução
Quando eu era pequeno, costumava sonhar que uma bola negra, lisa, brilhante e gigante me perseguia. Pode parecer engraçado, hoje, mas eu tinha muito temor à bola. E o mais impressionante é que a bola não queria me machucar. Eu corria sempre para frente, caía, a bola parava e eu levantava. O prazer dela era simplesmente me perseguir. Eu sempre procurei um significado para esse sonho sinistro, e talvez nem haja.
O que conto aqui é apenas parte do ilusionismo simplório que me cega.
Este? É real.
Parte I
Uma rua deserta era o caminho escuro daquela noite. A lua iluminava as gotas de água que caíam do céu e tocavam ao chão; cada gota, um barulho diferente. As vestes comuns, que cercavam o corpo de um jovem repleto de curiosidade, enfeitavam um simples cenário embaçado, astigmático. Ele adentrava a rua com uma adrenalina digna de parada cardíaca, deixando, a cada passo, o sapato mais sujo e molhado. Seu rosto magro e pálido obscurecia todos os sentimentos infiéis, que eram produzidos constantemente; sim, invisíveis a olho nu.
Algum arfar era escutado de um canto a outro da rua; o garoto não estava sozinho. Conduzido por um pavor inebriante, ele começou a correr. O chão de pedras colocadas naquela delicada equidistância se abria, tomando luz por alguns postes acesos. O garoto pensou em parar para observar quem eram aquelas pessoas, mas sentiu que o seguir o tomaria a um lugar seguro de calma.
Uma passarela vazia se pôs a frente dele, o que não o denotou menor medo. Subiu, andou, desceu. Sim, uma neblina colossal o cobriu. A noite caíra quase que de repente e ele nem prestara atenção no sumiço da lua. O lugar estava gelado e a chuva cessava aos poucos.
- Pablo, estou aqui! - uma voz que partia do meio da neblina ecoou docemente.
- Não consigo te ver, mãe. - resquícios de consciência e segurança regeneravam-se no garoto perdido.
- Tente seguir a minha voz! - alguma música soava pela neblina adentro, partida da voz daquela mulher escondida.
O cheiro de chuva naquele asfalto liso, dificultava a concentração, atraía a Pablo. Porém, com um esbarrão, ele e sua mãe se encontraram. Aquele calor solar dos dias de verão não era presente, mas a iluminação da rua ficou bem melhor quando o branco amarelado bateu na neblina. Nuvens de tom cinza claro deslocavam-se, cobrindo o céu e deixando somente o sol exposto por entre elas.
- Filho, precisamos entrar no hospital. - disse a mulher com uma preocupação maternal.
Algumas pessoas já se locomoviam pelo passeio público em direção aos seus trabalhos. Um carro ou outro passava pela rua larga, com a velocidade menor que o normal. E a mesma rotina de todos os dias passava a se fazer a partir dali.
Quando eu era pequeno, costumava sonhar que uma bola negra, lisa, brilhante e gigante me perseguia. Pode parecer engraçado, hoje, mas eu tinha muito temor à bola. E o mais impressionante é que a bola não queria me machucar. Eu corria sempre para frente, caía, a bola parava e eu levantava. O prazer dela era simplesmente me perseguir. Eu sempre procurei um significado para esse sonho sinistro, e talvez nem haja.
O que conto aqui é apenas parte do ilusionismo simplório que me cega.
Este? É real.
Parte I
Uma rua deserta era o caminho escuro daquela noite. A lua iluminava as gotas de água que caíam do céu e tocavam ao chão; cada gota, um barulho diferente. As vestes comuns, que cercavam o corpo de um jovem repleto de curiosidade, enfeitavam um simples cenário embaçado, astigmático. Ele adentrava a rua com uma adrenalina digna de parada cardíaca, deixando, a cada passo, o sapato mais sujo e molhado. Seu rosto magro e pálido obscurecia todos os sentimentos infiéis, que eram produzidos constantemente; sim, invisíveis a olho nu.
Algum arfar era escutado de um canto a outro da rua; o garoto não estava sozinho. Conduzido por um pavor inebriante, ele começou a correr. O chão de pedras colocadas naquela delicada equidistância se abria, tomando luz por alguns postes acesos. O garoto pensou em parar para observar quem eram aquelas pessoas, mas sentiu que o seguir o tomaria a um lugar seguro de calma.
Uma passarela vazia se pôs a frente dele, o que não o denotou menor medo. Subiu, andou, desceu. Sim, uma neblina colossal o cobriu. A noite caíra quase que de repente e ele nem prestara atenção no sumiço da lua. O lugar estava gelado e a chuva cessava aos poucos.
- Pablo, estou aqui! - uma voz que partia do meio da neblina ecoou docemente.
- Não consigo te ver, mãe. - resquícios de consciência e segurança regeneravam-se no garoto perdido.
- Tente seguir a minha voz! - alguma música soava pela neblina adentro, partida da voz daquela mulher escondida.
O cheiro de chuva naquele asfalto liso, dificultava a concentração, atraía a Pablo. Porém, com um esbarrão, ele e sua mãe se encontraram. Aquele calor solar dos dias de verão não era presente, mas a iluminação da rua ficou bem melhor quando o branco amarelado bateu na neblina. Nuvens de tom cinza claro deslocavam-se, cobrindo o céu e deixando somente o sol exposto por entre elas.
- Filho, precisamos entrar no hospital. - disse a mulher com uma preocupação maternal.
Algumas pessoas já se locomoviam pelo passeio público em direção aos seus trabalhos. Um carro ou outro passava pela rua larga, com a velocidade menor que o normal. E a mesma rotina de todos os dias passava a se fazer a partir dali.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Aprendendo a prestar mais atenção em pequenas bobagens. xD
Marcela: Ele *Meu xará Rafael.* parece com Harry Potter, velho!
Eu e Nati: Não parece nããããooo!
Nati: Ele parece com Dobby.
Rafael: Quem é Dobby? *Sotaque Caipira.*
Nati: É aquele elfo doméstico do filme.
Rafael: Ué, tá me chamando de animal, é? *Sotaque caipira mais uma vez.*
Todos riem. UHAUHAHUA
Eu: Ele é cantor sertanejo, pow. Canta um pouquinho aí, vai. *Raxando de rir.*
Rafael começa a cantar música sertaneja.
Marcela: Cadê sua dupla, rapaz?
Rafael: É, né? Tenho que arranjar.
Obs: Rafael é o meu xará. A conversa era sobre ele, não sobre mim. UHAHUA 8D
"A coragem não é a ausência de medo, mas a percepção de que algo é mais importante do que o medo."
Eu e Nati: Não parece nããããooo!
Nati: Ele parece com Dobby.
Rafael: Quem é Dobby? *Sotaque Caipira.*
Nati: É aquele elfo doméstico do filme.
Rafael: Ué, tá me chamando de animal, é? *Sotaque caipira mais uma vez.*
Todos riem. UHAUHAHUA
Eu: Ele é cantor sertanejo, pow. Canta um pouquinho aí, vai. *Raxando de rir.*
Rafael começa a cantar música sertaneja.
Marcela: Cadê sua dupla, rapaz?
Rafael: É, né? Tenho que arranjar.
Obs: Rafael é o meu xará. A conversa era sobre ele, não sobre mim. UHAHUA 8D
"A coragem não é a ausência de medo, mas a percepção de que algo é mais importante do que o medo."
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Amarugem
Vejo os pássaros voando, o sol, o verde, e, quando me canso, sinto a boca seca, a garganta inflamada de rouquidão. Sempre cantei por algum significado. Não existe. A simplicidade definitivamente prevalece nesses momentos ariscos. Onde o medo da solidão me fez tomar a decisão abdicativa da própria felicidade.
Plantei três rosas, três vidas, três perfumes, que, pela ponderação de sentimentos, se tornaram diferentes em epítome. Estorvei estas flores de exercer um senso dito normal, mas sempre as afaguei com o calor solar. O abrigar nunca me trouxera benefícios, além da satisfação habitual de tê-las ao meu lado. E, por concomitância de alguns prazeres, estas rosas criaram pés, mãos e mente. Seria preciso uma boa dose de água para afogá-las em desespero. Eu não. Eu quero rosas livres. Quero que estes perfumes encantem outros lares e distribuam mais sensações de conhecimento, mesmo que pouco.
Sinto-me esvaído de forças; de boas forças, talvez. Mas insisto, persisto e resisto a todo e qualquer mal que me tente consolar. Segue-me apenas um paladar esquisito, adverso a qualquer luz, sombra e água fresca. Nesses momentos, percebo como é fácil temer o escuro, ainda mais quando se está dentro dele.
Plantei três rosas, três vidas, três perfumes, que, pela ponderação de sentimentos, se tornaram diferentes em epítome. Estorvei estas flores de exercer um senso dito normal, mas sempre as afaguei com o calor solar. O abrigar nunca me trouxera benefícios, além da satisfação habitual de tê-las ao meu lado. E, por concomitância de alguns prazeres, estas rosas criaram pés, mãos e mente. Seria preciso uma boa dose de água para afogá-las em desespero. Eu não. Eu quero rosas livres. Quero que estes perfumes encantem outros lares e distribuam mais sensações de conhecimento, mesmo que pouco.
Sinto-me esvaído de forças; de boas forças, talvez. Mas insisto, persisto e resisto a todo e qualquer mal que me tente consolar. Segue-me apenas um paladar esquisito, adverso a qualquer luz, sombra e água fresca. Nesses momentos, percebo como é fácil temer o escuro, ainda mais quando se está dentro dele.
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